Wagner Araujo

Foto e movimento: Dicas para realizar um panning perfeito

2015 Ironman Mont Tremblant
Um panning clássico de bike a 1/80seg

Para mim, a principal diferença da fotografia em relação aos vídeos é a possibilidade de “congelar” um instante do tempo em um único frame. Os vídeos são como a vida: os momentos passam e você se recorda de parte da realidade que aconteceu. Uma fotografia registra um instante preciso no tempo, na maioria das vezes, pois é possível registrar imagens ao longo do tempo (que não é o foco deste artigo).

Registrar um momento específico no tempo tem um preço: ao “congelar” o tempo, perdemos também a noção de movimento, tão importante para a vida, intrinsecamente relacionada ao movimento. Como fotógrafos, muitas vezes, precisamos devolver a noção de movimento a um instante do tempo registrado na imagem. Existem diversas formas de se fazer isso, que explorarei em uma nova série de artigos.

panning

O primeiro deles será sobre uma técnica muito comum entre fotógrafos esportivos, o Panning. O panning se refere a uma rotação horizontal da câmera no sentido do movimento do sujeito fotografado, resultado em uma imagem semelhante ao que vemos ao movimentarmos nossas cabeças para acompanhar esse sujeito.

A técnica básica do panning consiste em manter o sujeito na mesma posição no frame e acompanhar seu movimento na mesma velocidade. Dessa forma, os demais elementos serão todos borrados pelo movimento (motion blur). O movimento ideal segue o mesmo plano do objetivo se movendo, assim não há movimento e blur vertical.

Para que o efeito funcione, é necessário utilizar velocidades do obturador baixas, dependendo da velocidade do movimento. Por exemplo, para bicicletas, utilizo 1/80seg. Para pessoas correndo 1/40. Já para veículos automotores em grande velocidade, 1/250. Quanto menor a velocidade, maior o blur e mais difícil conseguir um ponto com foco claro na imagem. Como regra geral, quanto mais lento o movimento do sujeito, mais difícil acertar um panning correto, com o fundo borrado e sujeito nítido.

Eu, normalmente, utilizo o modo Velocidade (S na Nikon ou Tv na Canon), assim pré-defino a velocidade que quero, faço pequenos ajustes com a compensação de exposição. O foco é uma parte que merece consideração no panning. Em dias claros, com uma velocidade baixa do obturador, a abertura será bem pequena, usualmente f/16 ou menor. Nessas circunstâncias, a dica é pré-focar onde o sujeito passará. O ideal é se posicionar paralelamente à sua trajetória. Caso você deseje usar uma abertura maior, valendo-se de um filtro ND, por exemplo, o foco será mais complicado e você terá que focar ao mesmo tempo que realiza o panning. Se você não utiliza o botão AF-On para focar, sugiro passar a usar. Utilizar o botão de disparo vai lhe causar problemas (não só nessa situação).

Realizando o panning

A primeira escolha que você deve fazer é se utilizará um monopé ou não. Quando a trajetória do sujeito é previsível e linear, o monopé ajuda muito, pois elimina o movimento vertical da câmera. Caso não tenha um monopé, a estabilização de imagem das lentes atuais (VR na Nikon e IS na Canon) ajuda bastante, permitindo pannings em diversas direções e não só no plano paralelo ao fotógrafo.

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Com a velocidade a 1/200, o movimento é bem sutil

Eu gosto de estar com a base das pernas bem apoiadas e girar somente o quadril ao fazer o panning, posicionando-me de forma que eu vá da posição menos confortável para a posição natural. Ao começar o panning, você deve acompanhar o sujeito antes que ele entre no frame que você idealizou. Imagine um ciclista vindo da direta para a esquerda e você quer que sua imagem principal seja bem à frente de você. Você deve começar o movimento do panning e o disparo do obturador antes de ele chegar a esse ponto, acompanhando o movimento e disparando a câmera. Isso evita dois problemas: um atraso no foco e um atraso no disparo do obturador.

É fundamental continuar acompanhando o movimento mesmo quando ele já saiu do seu frame ideal, assim você garante mais estabilidade nos frames centrais. Central aqui se refere ao frame e não à composição do frame (o sujeito pode estar à direita do frame, neste exemplo, mas o frame principal será aquele bem em frente a você.)

O movimento vertical da corrida torna o desafio maior. Velocidade 1/30seg
O movimento vertical da corrida torna o desafio maior. Velocidade 1/30seg

Parece simples, mas requer prática e paciência (o que na vida não requer isso?). Quanto mais lento o panning, mais difícil é o movimento. Por isso, prática, repetição e paciência são fundamentais. Em eventos “ao vivo”, você, provavelmente, não acertará de primeira, tampouco acertará todos os frames, mas se tiver treinando e estudado a técnica terá algumas boas imagens. Eu nunca espero que o panning acerte de primeira, tampouco aposto todas as minhas fichas em um panning, pois a margem de erro é grande, mesmo entre nós, profissionais. Mas eu quase sempre uso panning em eventos esportivos como forma de complementar e enriquecer uma cobertura.

Considerações adicionais sobre o panning

Sempre verifique suas imagens no LCD da câmera utilizando o zoom máximo. Uma imagem pode parecer nítida no LCD, mas quando você abre no Photoshop tem aquela surpresa desagradável (eu uso essa regra para todas as fotografias importantes). Use o zoom máximo e verifique os pontos críticos do seu panning.

Por falar nisso, como o objeto está em movimento, você precisa definir quanto movimento você quer e onde. Por exemplo, ao fazer o panning de um ciclista, você pode querer somente suas pernas se mexendo devido à pedalada. Um corredor é mais complicado, pois ele está em constante movimento de todos os membros, além do seu próprio movimento vertical ao tocar o solo. Para veículos automotores há menos partes móveis, basicamente só a roda, assim, é mais fácil ter todo o sujeito em foco. Cabe a você, como fotógrafo, definir o quanto de movimento deseja.

Panning a 1/20
Panning a 1/20seg

Fique atento ao fundo, pois ele pode deixar a imagem mais interessante. O panning é muito usado quando o background é muito ruim ou poluído, pois fica tudo borrado. Ao longo do tempo como profissional comecei a perceber que um bom fundo pode tornar um bom panning uma imagem incrível. Padrões de cores, contraste, diferenças de luz tornam a imagem muito mais interessante.

Um exemplo onde o fundo escuro torna a composição mais interessante. velocidade 1/80seg.
Um exemplo onde o fundo escuro torna a composição mais interessante. velocidade 1/80seg.

Logo você perceberá também que a distância de você em relação ao sujeito fotografado faz toda a diferença. Quanto mais longe, menor a velocidade relativa e mais fácil acertar um panning nítido. Quanto mais perto, mais difícil o controle da velocidade. Por isso, muitos fotógrafos utilizam a 70-200mm ou outras teles nos pannings. Apesar de mais difícil, usar lentes wide e se posicionar mais perto do sujeito cria imagens bem diferentes, especialmente se você utilizar o flash em slow sync (imagem abaixo), tópico do próximo post da série sobre motion blur.

Slow sync flash será o tema do próximo post da série
Slow sync flash será o tema do próximo post da série

Bons cliques.

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