Wagner Araujo

O desafio de fotografar um mesmo evento várias vezes

Anos e anos seguidos, várias vezes por ano… o que fazer para não ter as mesmas imagens?

Estou um pouco ausente do blog neste último mês. A carga editorial do MundoTRI está brutal, além disso, estamos cobrindo, praticamente, todas as provas de Triathlon do Brasil e algumas no exterior. Quero aproveitar este momento de breve pausa para tratar de um tema muito importante para fotógrafos de esporte: como fotografar um mesmo evento ou competição várias vezes, no mesmo local sem ser repetitivo.

Acho que esse deve ser um desafio comum a outros tipos de fotógrafos, como os de casamento e os de produto. Meu foco, no entanto, é o esporte. Tomarei como exemplo as competições de Triathlon em Santos. Todo ano, temos, no mínimo, 6 competições importantes na cidade, quase todas elas no mesmo percurso, com o mesmo visual. Como já cubro essas provas há algumas anos, poso dizer que já estive lá dezenas de vezes.

Toda vez que me dirijo ao litoral paulista penso: o que posso fazer de diferente dessa vez? Apesar de nunca ter sistematizado as ideias antes deste artigo, fui desenvolvendo algumas estratégias ao longo do tempo. Elas são temporais, depende muito do meu estilo de fotografia à época. As que consegui me lembrar foram as seguintes:

  1. Tente lentes diferentes – Atualmente, tenho descoberto meu lado grande angular. Confesso que sempre gostei, mas tenho abusado nos últimos meses. O resultado tem sido muito bom. Não costumo usar fisheyes, pois são imagens com pouca utilidade editorial. No entanto, se você tem lentes de 14 a 16mm Full Frame (11 a 12mm DX), a brincadeira fica muito interessante. Se o dia estiver nublado, não tenha dúvida: coloque sua ultra-wide, um filtro polarizado e você vai ter aquele céu com muito contraste e bem azul, perfeito para imagens abertas em esportes. As lentes de controle de perspectiva também são interessantes, especialmente as Lens Baby, que pode ser adquirida por menos de 300 dólares.

  2. Corte suas fotos – Essa é uma tática derivada do item anterior. Algumas vezes, o ultra-wide só faz sentido quando cortado. Eu sempre aplico crop às fotos. Tiro cones, corto pessoas etc. Quando a foto é importante – uma capa, por exemplo,- me dou ao trabalho de tirar elementos da cena na pós-produção, mas isso é raro.

  3. Variar ângulos é óbvio, então o segredo é ser extremo. Eu gosto muito de ângulos muito baixos, especialmente na bike. Nestes casos, costumo usar o foco no infinito para agilizar o processo, ou então quando estou em lugar no qual não posso me deitar como uma selva.

  4. Se há algo único em cada momento é a expressão de uma pessoa. Neste ponto, me inspiro no mestre Ivan Padovani, com quem tenho o privilégio de trabalhar lado a lado em algumas provas. Para ele, ficar atento a situações incomuns e estar bem próximo da ação é fundamental para conseguir imagens diferentes em um mesmo local ou situação.

  5. Um tema que já abordei aqui no Blog é o uso do flash off-camera para mudar suas fotos. Quando tenho paciência de usar tripé e tudo mais acabo conseguindo ótimas imagens. O segredo aqui é variar a relação de luz entre o sujeito e o fundo. Sempre coloque o background um ou dois stops abaixo do sujeito e você terá uma cena totalmente diferente.

  6. Variar a exposição é mais um artifício que podemos usar para mudar totalmente uma cena. Apesar de sua câmera calcular uma exposição “teoricamente ideal”, não há regra para isso. É possível fazer imagens primorosas subexpostas e superexpostas, desde que você saiba o que está fazendo. Para esportes, funciona muito bem cenas “gritantes”, com muito contraste, em geral superexpostas. Trabalho também com um grupo de fotógrafos chamado Endurapix (www.endurapix.com). Esse grupo foi idealizado pelo grande Lary Rosa, que cobre o Ironman do Havaí há décadas. Lary conta que o controle do balanço de branco e da exposição pode deixar as cenas em um mesmo local completamente distintas.

  7. Tente técnicas fora do comum – Panning é comum no esporte, mas que tal um zoom panning ou um circle panning? Além de muito divertido, usar esse tipo de técnica, ao vivo, com “o pau comendo”, vai levar sua concentração ao limite, o que é muito bom. Vale também subir em árvores, se esconder atrás de alguma coisa, mostrar algum objeto do cenário que é comumente mostrado, enfim, fazer o que você não costuma fazer. No Ironman do Havaí de 2010, conheci um fotógrafo que passava um pouco de vaselina em um filtro transparente para obter alguns efeitos diferentes.

  8. Varie os modificadores de luz. Eu sei que, em esportes outdoor, é difícil fazer isso, mas vale a pena tentar. Uma dessas mudanças me rendeu uma regra de ouro. Eu sempre uso flashes com gel CTO de 1/8, assim as peles dos atletas ficam muito mais naturais. Quando a manhã está bem azul, mudo o balanço de branco para tungstênio e coloco um filtro ½ CTO ou 1 CTO no flash, criando um fundo super azul com o sujeito bem “quente”, fica espetacular. Você pode usar softboxes, sombrinhas, enfim, o que achar mais conveniente. Meu parceiro Ivan Padovani, por exemplo, sempre utiliza os flashes com a softbox. As minhas sempre voam com o vento, então desisti… rs

  9. Nunca se esqueça de fazer o básico. Sim, aquela parte chata e repetitiva é importante. A questão central é não se ater a ela. Garanta o essencial e trivial e, depois corra para experimentar. Assim você terá um set com ótimas imagens para qualquer tipo de uso.

No fundo, seja aquele mesmo cara curioso que você era quando começou e está tudo resolvido. Lembre-se também que haverão dias sem muita inspiração, o que acontece com todo o profissional de qualquer setor. Se isso acontecer, segure a vontade de mudar de profissão, faça o básico, vá para a casa, trate as imagens e durma. O outro dia deve ser bem melhor.

Bons cliques.

Categories: Eventos,Inspiration

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