Wagner Araujo

Quer tudo em foco? Foque na distância de hiperfoco

Um conceito desconhecido de muitos, que o fazem intuitivamente

Os fotógrafos especialistas em paisagens costumam fazer composições considerando três planos: primeiro plano (foreground), segundo plano (middle ground) e o plano de fundo (background). Uma boa imagem de paisagem tem elementos interessantes nesses três planos, quase sempre com todos eles em foco. A questão é: como fazer com que tudo fique em foco?

O que está ou não em foco em uma imagem é controlado pela abertura da lente, a distância focal e a distância entre você e seu sujeito em foco. Esses fatores, combinados, fornecerão a profundidade de campo (DoF – Depth of Field, em Inglês) da imagem registrada. Quanto maior a profundidade de campo, mais pixels com nitidez aceitável na imagem. Quanto menor a profundidade de campo, menos pixels com nitidez aceitável ma imagem. Um dos efeitos da pequena profundidade de campo é o bokeh, quando o background do sujeito em fico fica “borrrado”.

Essas variáveis seguem as seguintes regras gerais (e, outrossim, seus inversos):

  1. Quanto menor a distância focal, maior a profundidade de campo;
  2. Quanto maior a distância entre você e o sujeito em foco, maior a profundidade de campo;
  3. Quanto menor a abertura de sua lente, maior a profundidade de campo.

 

Se você quer boa parte do frame em foco, deve seguir alguns desses caminhos: 1) Usar uma pequena distância focal, normalmente encontradas em lentes wide (10 a 35mm); 2) Ficar o mais longe possível do sujeito em foco; 3) usar u a abertura pequena (f/8 a f/16 ou mais, embora haja problemas em aberturas muito pequenas, como falarei à frente).

Mesmo usando esses parâmetros, sempre resta uma dúvida ao fotografar paisagens: onde devemos focar? A resposta para essa pergunta está no conceito de hiperfoco. O hiperfoco, de forma simplificada, pode ser definida como a distância na qual focamos que permite que tudo desde a metade dessa distância até o infinito esteja em foco “aceitável”. Por exemplo, se calcularmos que a distância de hiperfoco de uma certa situação seja de 5m, isso significa que tudo desde 2,5m até o infinito estará em foco aceitável.

Essa definição tem um implicação importante: embora tudo esteja aceitavelmente em foco, nada estará incrivelmente nítido. Por exemplo, se você quer focar em um cavalo correndo em uma paisagem, o cavalo não será tão nítido se o foco estiver na distância de hiperfoco quanto se estivesse nele próprio. Portanto, o hiperfoco é muito útil em situações de paisagens típicas, que se estendem até o horizonte (foco no infinito).

O cálculo do hiperfoco é bem complexo e não vale a pena tentar aprender, pois você não vai levar uma calculadora científica com você o tempo inteiro. A melhor opção é usar apps para smartphone. Eu uso a DOFMaster para iPhone (eles também têm a versão web e para Android http://dofmaster.com/). Basta inserir seu tipo de câmera, distância focal e abertura que ele informa a distância do hiperfoco. Caso você não queira focar no hiperfoco, basta informar na app a distância do sujeito que ela calcula a profundidade de campo da imagem (intervalo de nitidez aceitável).

nikon

Por exemplo, em uma Nikon D7000, a 18mm e f/8, a distância de hiperfoco é de 2.04m. Isso significa que tudo desde 1.02m até o infinito estará aceitavelmente nítido. Se eu precisar de mais luz e alterar a abertura para f/2.8, a distância de hiperfoco será 5,75, logo eu terei menos profundidade de campo.

Observe essa tabela comparativa com alguns exemplos de distância de hiperfoco com diferentes combinações de distância focal e abertura em uma câmera Nikon D7000:

 

18mm

50mm

120mm

f/2.8

5.75m

44.2m

254.7m

f/8

2.04m

15.7m

90.1

f/13

1.22m

9.34m

53.6m

Os números mostram que as relações que já citei acima continuam válidas em se tratando de hiperfoco: se você quer grande profundidade de campo, escolha uma lente wide e uma abertura pequena para registrar paisagens com elementos distantes. Em geral, só utilizo a distância de hiperfoco até distâncias focais de 35mm. Quase 100% das vezes f/8 (abaixo explicarei porque não f/11, f/13, f/16, f/22 etc.).

Focando na distância de hiperfoco

Uma vez calculada a distância em seu smartphone, basta colocar o foco da lente no manual e focar na distância adequada. Simples? Nem tanto. A maioria das lentes tem escalas sem divisões, com grandes espaços. Para ter segurança, sempre foco um pouco além da distância de hiperfoco. Por exemplo, imaginem que estou usando a lente Nikon 17-55 a f/8 e 18mm.

A distância de hiperfoco para essa configuração é de 2.04m. Neste caso, foco um pouco depois de 2m. Mesmo que eu focasse em 3m, tudo de 1,5m até o infinito estaria em foco aceitável. Se eu focar a uma distância menor de 2.04m terei a profundidade de campo bastante reduzida. Por exemplo, ficando a 1,5m você teria nitidez de 1.02m a 1377m, um espectro bem menor do que o da distância de hiperfoco. Assim, essa regra, que pode ser comprovada matematicamente, é sempre válida: se a distância de foco for maior que a distância focal, tudo desde a metade daquela distância até o infinito estará em foco. Logo, sempre foque um pouco depois do hiperfoco, para ter uma margem de segurança.

E se sua lente não tem escala de foco ou você não tem como calcular a distância de hiperfoco? Existe uma regra prática divulgada pelo excepcional fotógrafo da National Geographic Rick Sammon que é a seguinte: escolha uma lente wide, uma abertura pequena (f/8 ou menor) e foque em torno de 1/3 da cena. Em geral, funciona muito bem, especialmente não é a ideal, por isso verifique seu LCD, ampliando a imagem o máximo possível para verificar a nitidez. Não espere para fazer isso depois que descarregar as fotos, pois você pode frustrar-se muito.

A técnica do hiperfoco se encaixa bem quando você tem muito tempo para pensar, bons elementos em todos os planos que justifiquem essa abordagem (foreground, middleground e background), um bom tripé e uma paisagem que realmente valha a pena. Caso contrário, eu utilizo a regra de 1/3 ou tento no focar no que é mais importante para mim no momento.

O maior problema da técnica do hiperfoco é que a nitidez é somente “aceitável”, o que não chega a comprometer a imagem. Às vezes o foreground (1º plano) precisa de mais nitidez, motivo que justifica abandonar o hiperfoco. Outra questão é que o hiperfoco não corrige problemas de nitidez de uma lente. Lentes com baixa nitidez focadas no hiperfoco apresentarão um nível muito baixo de nitidez aceitável.

Para fotos de paisagens a técnica do hiperfoco é excelente, gerando grandes resultados. Uma sugestão, que tornou-se uma regra para mim, e não usar aberturas menores do que f/11. Teoricamente, considerando as relações que discutimos neste artigo, essas aberturas (f/16, f/22 etc.) seriam mais nítidas. No entanto, existe o fenômeno da difração.

A difração acontece em qualquer tipo de onda, inclusive a luz. Toda vez que ondas se deparam com um orifício, o fluxo resultante após o orifício será divergente, como ilustrado abaixo:

Isso acontece, por exemplo, quando a luz entra em uma pequena abertura e se espalha um pouco dentro de um quarto escuro. O problema da geração é que a luz fica divergente no sensor da câmera, diminuindo a nitidez e criando “halos” ao redor das bordas de pixels de maior contraste na imagem. Quanto menor a abertura, maior a difração. Raramente eu consigo resultados satisfatórios com aberturas acima de f/11. Por isso, mantenho minhas imagens com grande profundidade de campo entre f/8 e f/11. Se for necessário diminuir a luz, prefiro usar um filtro ND para escurecer a cena. O problema da difração é ainda mais grave nas câmeras DX (crop), pois o tamanho do sensor é menor, assim, o impacto relativo da divergência da luz é maior.

Agora, ao encontrar uma bela paisagem pela frente, você já sabe o que fazer.

Bons cliques.

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Observação: no cálculo da distância de hiperfoco é levado em consideração também o tipo de câmera (DX, FX, 35mm etc.), pois os diferentes sensores (ou filmes) possuem uma relação distinta com os planos de foco.

Curiosidade: se você focar no infinito em sua lente, você terá uma nitidez aceitável desde o infinito até a distância do hiperfoco. É por esse motivo que fotos de estrelas e constelações também deixam objetos na terra presentes no frame, como uma montanha, nítidos.

 

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