Wagner Araujo

Técnicas de autofoco e foco manual para fotografia esportiva

Compreender a forma como sua máquina funciona é essencial para não gerar confusão na hora em que a ação estiver acontecendo, o que pode ocasionar a perda de muitas imagens importantes. Neste artigo, uso como exemplo as câmeras Nikon D7000 e Nikon D600 (A D750, D7100 e D810 são bastante semelhantes.

Para alguns, fotografia é arte, para outros, técnica. Para mim, a fotografia é uma arte que só pode se expressar plenamente quando se domina a técnica. E, se tem um ramo da técnica fotográfica que gera diversas dúvidas para os fotógrafos, esse ramo são as técnicas de autofoco e foco manual. Isso é especialmente importante na fotografia esportiva. Neste artigo, usarei como exemplos as câmeras que utilizo, a Nikon D600 e a Nikon D7000. Embora a nomenclatura possa ser diferente, as demais máquinas DSLR de qualquer marca, de um certo nível para cima, possuem as mesmas funções, logo, as técnicas são as mesmas.

Os modos de autofoco

Muitos iniciantes leem os manuais de suas câmeras e sabem como alterar os modos de autofoco, mas poucos sabem o que cada um deles realmente faz. Depois de algumas centenas de imagens sem foco ou borradas, acabam colocando a máquina no “modo esportes” para conseguir alguma coisa útil. Nada contra o “modo esportes”, mas ele reduz drasticamente o controle do fotógrafo sobre a luz e a cena. Em algumas situações ele vai produzir resultados semelhantes a utilizar prioridade de abertura (A mode em câmeras Nikon). Em outras situações, no entanto, ele não resolverá.

Vamos, então, tomar como ponto de partida o “modo esportes” para entendermos as estratégias de autofoco e foco manual. Na Nikon D7000 e na D600, esse modo tem a seguinte configuração: Maior abertura e maior shutter speed possível, Auto ISO e Autofoco contínuo, o AF-C. E por que o modo AF-C é usado em esportes?

O Modo AF-C

No que se refere às configurações, o “modo esporte” segue a receita de bolo para “congelar” o movimento, inclusive no que se refere ao foco. O autofoco contínuo (continuous-servo AF ou AF-C), é usado para objetos em movimento. Os sensores de foco ficam, continuamente, calculando a distância focal do objeto. Nas duas câmeras que utilizo, mencionadas acima, existem 39 sensores de foco, sendo 9 deles verticais e horizontais e 30 somente horizontais. Assim, quando se usa o AF-C, a câmera vai usar um ou mais sensores para manter o foco no sujeito enquanto ele se move em direção ou contra a câmera. É possível ainda rastrear um sujeito que atravessa o frame da esquerda para direita ou vice e versa. Para tanto, é necessário também entender que, além do modo de autofoco, também precisamos determinar o modo de área do autofoco. Antes de entrarmos nessa seara, vamos finalizar a explicação dos demais modos de autofoco.

Os Modos AF-S e AF-A

Além do AF-C, existe ainda o AF-S (Single-Servo) e o AF-A (Auto Servo). O AF-S é utilizado quando a distância entre o sujeito e a câmera é constante e ele não se movimento muito lateralmente. Ao pressionar o botão de disparo até a metade, a câmera foca e não altera mais até você liberá-lo. Já o AF-A é o modo automático. Basicamente, ele começa focando como o sistema AF-S, mas, se o objeto se move na cena, ela automaticamente passa para o sistema AF-C para segui-lo.

O AF-A parece ser promissor, mas para fotografia esportiva é um desastre. Como bem diz o grande mestre Rick Sammon: “Só porque a câmera tem um sistema de autofoco, isso não quer dizer que ela saiba onde você quer o foco.” O que o AF-A usualmente faz é mudar o ponto de foco para qualquer coisa que se mova, mesmo que não seja o que você quer. Por isso, eu nunca uso o AF-A para imagens esportivas.

Foco Manual

Além dos sistemas de autofoco, existe sempre a possibilidade do foco manual, que é muito utilizado por fotógrafos de retratos e macro. Para esportes, costumo usar o foco manual em três situações: 1) quando quero foca na distância do hiperfoco para capturar uma cena com grande profundidade de campo (em geral, uma paisagem com atletas na cena); 2) Quando quero fazer uma foto mais artística fotografando através de um vidro ou acrílico (o autofoco fica louco nessas situações). 3) Quando quero focar algo bem específico e não consigo fazer com os sensores da câmera.

Os modos de área de autofoco

Entender os tipos de sistemas de autofoco só resolve metade dos problemas. A outra metade está nos diversos modos de área de autofoco. Esses modos determinam que área do frame a câmera utilizará para focar.

Single-Point AF

A primeira opção é o Single-Point AF, ou seja, um único sensor será utilizado para foco. Essa, obviamente, é a opção automática para o modo AF-S. Tanto na D7000 quanto na D600, é possível escolher entre 11 ou 39 pontos no viewfinder. Eu uso 11, pois 39 são demais e, como veremos à frente, mais demorado.

Dynamic-Area AF

A segunda opção, que mais utilizo, é o Dynamic-Area AF. Neste modo, quando você foco um objeto em um ponto selecionado, os pontos vizinhos ajudam a manter o foco caso haja movimento. Essa é a opção que utilizo 80% do tempo.

Como as câmeras possuem diversos sensores, é possível escolher a quantidade de pontos que serão utilizados para manter o foco:

9-Point Dynamic-Area AF – usado, teoricamente, para movimentos lentos e mais previsíveis, como os atletas aquecendo ou caminhando antes de uma competição. NO entanto, como os movimentos no triathlon, ciclismo e corrida são muito previsíveis, essa opção funciona muito bem.

21-Point Dynamic-Area AF – usado para objetos mais rápidos e mais imprevisíveis. Já tentei usá-lo nas competições que cubro mas descobri que são sensores demais e, via de regra, eu perco o foco.

39-Point Dynamic-Area AF – eu raramente uso essa opção porque a câmera começa a identificar objetos demais e o foco acaba indo para onde você não quer. Essa opção é mais usadas para fotógrafos de animais selvagens com grandes lentes telefotos. Neste caso, o movimento é totalmente imprevisível, além de ser muito difícil acompanhar um animal a 40km/h com uma enorme lente de 600mm.

Vale lembrar que é necessário manter o botão de disparo pressionado até a metade para que o Dynamic Area AF funcione e o foco permaneça contínuo (você escutará o motor de foco funcionando o tempo inteiro).

3D-Tracking

O 3D-Tracking “seria” o modo inteligente de autofoco contínuo das câmeras. Basicamente, ele é usado quando não se pode acompanhar o movimento movendo a câmera (nessas situações, é melhor usar o  Dynamic-Area AF). A câmera acompanha o movimento de um objeto ao longo do tempo usando o contraste entre os diversos planos existentes na vida real. Eu disse “seria” porque, na prática, ele só funciona quando o contraste é grande como, por exemplo, um atleta correndo com o oceano de fundo. Neste caso, a máquina determinará, facilmente, qual objeto seguir. Mas, se você tiver 10 corredores juntos, cada um com uma cor de roupa, pode ser que ela se confunda ainda mais. Pior ainda são em esportes coletivos de contato, como futebol e basquete.

Neste caso, principalmente se os uniformes forem semelhantes ou houver elementos no campo semelhantes ao uniforme, o autofoco não funcionará de forma satisfatória. Imagine que um jogador com uma camisa vermelha passe da direita para esquerda do frame e, no meio do caminhe, haja uma placa vermelha de um patrocinador. Caso esse atleta volte, é provável que câmera ainda foque por alguns segundos na placa ou ainda em outro atleta que passe com a camisa da mesma cor. O 3D-Tracking funciona mesmo com objetos isolados, em um fundo com muito contraste, preferencialmente escuro. Um partida de esgrima é um cenário perfeito para esse modo.

Auto-Area AF

Quando estou fotografando, não me agrada muito tudo que tem “auto” no nome, pois sei que terei menos controle. No Auto-Area AF, a D7000 e a D600 utilizam os 39 pontos e um algoritmo milagroso para saber o que deve ser focado e quantos sensores utilizar. Esse é o melhor exemplo da máxima de Sammons que citei acima. O viewfinder fica parecendo uma discoteca com os pontos mudando de lugar e de cor. Para fotografar seus filhos e sobrinhos no aniversário, tudo bem, mas para algo profissional este modo está fora de questão. O foco no sujeito acaba se tornando uma questão de probabilidade, e você terá 1/39 de chance de acertar ;). Eu não recomendo esse modo para nenhum tipo de foto séria, você vai ficar muito decepcionado ao saber que perdeu várias imagens potencialmente boas.

Outras considerações sobre o autofoco em esportes

Além dos sistemas de foco em si, há outras configurações nas câmeras que podem determinar o sucesso do foco e, consequentemente, o grau de nitidez das imagens. Nas câmeras Nikon é possível escolher se a prioridade é do foco ou do disparo nos modos AF-C e AF-S (AF-C priority selection e AF-S priority selection). Quando a prioridade é o foco, a máquina não dispara enquanto não há foco. Já quando a prioridade é o disparo, a máquina tenta focar o mais rápido possível, mas dispara mesmo se não estiver em foco.

Eu uso prioridade de foco para o AF-S, já que o sujeito não estará se movendo; e a a prioridade de disparo para o AF-C. Você deve estar se perguntando: do que adianta disparar se o sujeito pode não estar em foco. O que acontece é que faço disparos múltiplos (até 9 frames por segundo), e minha experiência mostra que a câmera continua tentando ajustar o foco ao logo desse pequeno intervalo entre os disparos. Com isso, sempre salvo 2 ou 3 fotos de uma sequência. Para sujeitos pouco velozes, como um atleta correndo, o foco, via de regra, funcionará bem. E você pode clicar apenas uma ou duas vezes com confiança. Mas, quando uma bike passa a 40km/h ou 50km/h, a conversa é outra. O problema dessa técnica é que você terá mais arquivos no cartão de memória e na hora de importar, mas você pode descartá-las depois.

É possível também customizar o tempo que câmera mantém o foco sobre um objeto em movimento. Nas câmeras Nikon essa opção vai do off (sem manter nada) ao 5 (cerca de 3 segundos). Eu costumo usar 2 ou 3, que mantém o foco entre 1,5 e 2 segundos.

Outra configuração adicional muito importante é o número de pontos na tela: 11 ou 39 (Number of focus points). Como abordei no início desse longo artigo (sim, você já deve ter esquecido), 39 são pontos demais. Isso porque, ao mudar o ponto de foco é necessário andar mais “casas” para se chegar onde quer. Por exemplo, para ir da extrema direita para a extrema esquerda gasta-se 5 “pulos” com 11 pontos e 10 pulos com 39 pontos. Essa pode ser a diferença entre perder um momento ou não. Também ajuda muito se você puder configurar sua máquina para pular de um lado para o outro (Focus point wrap-around). Assim, se você estiver com o ponto de foco na extrema esquerda e precisar ir para a extrema direita precisará de apenas um clique para esquerda. É como se o ponto desse a volta por trás. O mesmo vale para o eixo vertical.

A opção AF point illumination é simples. Utilizo a opção “on” . Isso quer dizer que as câmeras vão mostrar os pontos de foco em vermelho sempre, criando uma referência.

No que se refere ao auxílio a focagem (Built-in AF-assist illuminator), costumo deixa ligado. Ele emite uma luz para ajudar a focagem em baixa luz. É extremamente útil nas provas de Triahlon, nas quais os atletas chegam de madrugada na área de transição para prepararem suas coisas. Vale lembrar que a iluminação só funciona no AF-S e no AF-A e o sensor de foco selecionado deve ser o central. Cuidado com o parasol das lentes, que podem atrapalhar o iluminador.

Em resumo, minhas técnicas de autofoco para esportes:

  • Fotos do atleta de frente: AF-C / 9-point Dynamic-Area;
  • Foto do atleta de lado, atravessando o frame: AF-C / 9-point Dynamic-Area acompanhando o movimento) (ou AF-C / 3D-Tracking quando só há um objeto se movendo e a câmera está parada em um tripé ou monopé);
  • Fotos de mountain bike em ambientes com muitas árvores, como provas off-road: AF-C / 3D-Tracking;
  • Fotos de panning em trajetos previsíveis não paralelos: Pré-focagem e foco manual;
  • Fotos de panning em trajetos paralelos: AF-C / 9-point Dynamic-Area (ou AF-S / Single Point quando a velocidade é baixa);
  • Fotos de panning em trajetos variados e imprevisíveis: AF-C / 21-point Dynamic-Area;
  • Fotos de corridas em trilhas com percursos imprevisíveis: AF-C / 3D-Tracking;
  • Fotos de manobras imprevisíveis, como skate e câmera parada: AF-C / 3D-Tracking;
  • Fotos de manobras imprevisíveis, como skate e câmera se movendo: AF-C / 9-point Dynamic-Area ou 21-point Dynamic-Area, depende de quão fechada for a imagem;

Bons cliques.

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